domingo, outubro 31, 2010

26.08.2010 - da Escola de Cavalaria ao Prater

O terceiro dia foi a prova de que, se não morri até agora, não morro mais! Tudo começou com a treino matinal dos cavalos Lipizzaner da Escola Superior de Montaria. Já tínhamos comprado os ingressos no dia anterior para o evento concorridíssimo. Dessa vez só iríamos eu, Marido e Cunhado. Depois de ver os cavalinhos tomando muita chibatada pra saltar direito e os alto-falantes berrando que era “proibido fotografar” em umas mil línguas diferentes e quase ninguém respeitar, (De repente, vai que só tinha gente que falasse Latim ou Aramaico, né.) encontramos o resto da família lá fora, às 12h. Eles já tinham passeado pela zona nobre, feito comprinhas frugais e comprado pizza (Nesse tempo em Viena não vi nenhuma pizza de calabreza. Eles usam é um salame muito do ruim.). Bem, o plano era pegar o Tram 1, já experimentado no dia anterior, para dar uma volta e ver alguns pontos importantes. Como a Cunhada ainda não estava totalmente recuperada, era nossa chance de evitar andar demais e matar a coitada.

Nossa primeira parada seria o Compexo Arquitetônico Hundertwasserhaus. O arquiteto e artista plástico F. Hundertwasser idealizou esses projetos e as cores e formas das obras são fantásticas. Ele pode ter lá uma história de vida muito mal contada mas suas obras impressionantes merecem o devido respeito. Tiramos fotos e, claro, compramos nossos souvenirs, né. Eu, ainda pobre que só, reduzindo meus souvenirs a tudo que era de papel e odiando minha existência por estar num lugar como Viena com tão pouco dinheiro! Depois de visitar a Hunderwasserhaus, o resto da família quis voltar pro hotel. Fomos com eles até a altura do Parlamento Austríaco. Lá, saltamos, eles seguiram para Ottakring e nós voltamos a pé para fotografar os prédios e talz e eliminar mais alguns pontinhos do meu mapa turístico. Tive a ligeira impressão de que Marido tentava me punir. É como se ele dissesse: “Ué, você não queria ver tudo? Agora vai ver tudo!” Já me fazia lembrar o dia em que minha mãe me fez ENGOLIR uma Banana Split inteira só por causa de uma pirracinha que fiz por um sorvete que era maior do que eu!

Fazer turismo envolve muita andança. Não só a peregrinação para chegar até os lugares, mas também tudo o que você anda dentro dos lugares, as escadarias, as entradas erradas e as voltas desnecessárias que você dá só porque não checou o mapa mais uma vez. Todos os caminhos levam a Roma? Em Viena, todos levam ao Hofburg. Não interessa por onde você anda, você vai parar sempre lá! Eu queria visitar a Casa das Borboletas, ali por trás do Hofburg. Depois de meia hora empurrando e acotovelando todo mundo em nome de uns ângulos decentes para fotografar as borboletas, eu já estava fedendo a uma mistura de percevejo com gambá. Tava quente como o inferno ali dentro daquela estufa e a humidade não ajudava nem um pouco. Antes que eu morresse cozida ou, pior, com o meu prórpio cheiro, resolvemos sair dali.

Ainda tínhamos a Casa da Música pra visitar. É um museu interativo, cheio de experimentos com som. Já cheguei ouvindo Clara Nunes e seu Canto das Três Raças (Pô, olha o nível da recepção. Já sabiam que eu estava a caminho!). Muito legal a sensação que dá quando você está fora e experimenta esses momentinhos da pátria. Quando se trata de algo de “qualidade”, mais orgulho e saudade ainda! Não sei bem qual é a dos austríacos, mas parece que eles têm um critério: só trabalha em museu, restaurante, loja, anda na rua e respira quem for... lindo! Nunca vi tanto homem bonito na minha vida! O melhor é disfarçar, não dar bandeira, olhar pro chão quando for comprar as entradas. Tudo pela paz matrimonial. Chegamos ao balcão da Haus der Musik e tinha um deus germânico lá pra nos atender. Aí, falei “Marido, vai você” antes que meu rubor me entregasse ou que o carinha percebesse meu perfume italiano Acqua della Fossa. Lá dentro, nós encontramos o Otto Nicolai, fundador da Filarmônica de Viena, outras figuras ilustres como Mozart, Beethoven, Haydn e Schubert, fizemos nossa própria valsa, regemos a Filarmônica virtualmente, tocamos na Orquestra Cerebral, escutamos muito atrás das paredes, viramos cobaia e tudo o mais. A cada andar que subíamos, eu deparava com outro deus germânico e esperava o Marido seguir junto para não cair em tentação e pular em cima dum e ser arrastada pra fora pela Polizei gritando Hilfe!.

Depois de comer num restaurante, onde fomos atendidos por outro deus germânico, voltamos para a área da Ópera de Viena pra tirar mais fotos. Minha idéia idiota: tirar fotos em dias diferentes pra ver como ficavam quando a luz variava. Se joga, mané! Me arrastaram pelas ruas em declive sem dó nem piedade. Passamos para comprar guloseimas nos cafés, seguimos por dentro da Escola de Belas Artes, avistamos o Goethe e o Schiller sentados por lá só com os pombos, coitados, chegamos ao MuseumsQuartier, onde os pátios estavam LOTADOS de gente... Depois dessa, minhas pernas já pareciam dois bambolês velhos e meu corpo estava no piloto automático, mas o Marido disse que se não forçássemos a barra, a gente nunca ia conseguir eliminar os pontinhos do meu mapa (Pra falar a verdade, quem estava quase fora do mapa era eu!). Quando ele resolveu pegar o metrô, eu quase chorei. Durante minha estadia em Viena eu já queria jogar cocô em qualquer um que pronunciasse a palavra metrô. Era escadaria, plataforma e gente bragarai! Dessa vez, ainda teríamos que trocar novamente de linha. Tá, tudo em nome do mapa! Vamos lá, vamos pro Prater, no Vale do Danúbio. Chegando na Estação do Prater, a sensação que eu tinha é de estar vindo da China via manto terrestre. Nunca vi tantas escadas rolantes, plataformas, elevadores no mundo. Deve ser a maior estação da galáxia. A gente subia, subia e subia, e nunca chegava! Quando, finalmente, alcançamos a estrada, já era necessário que eu me inclinasse pra frente propulsionando o peso do corpo pra ver se eu conseguia chegar ao outro lado da rua.

O Prater é uma área de entretenimento com parque de diversão, quiosques de comida, música, juventude e muita bagunça. É lá que fica uma das rodas gigantes mais famosas do mundo, na qual, claro, eu fiz questão de andar. Eu achei que meus anos com o Bondinho do Pão de Açúcar fossem me preparar para essa subida. Quando vi os vagoes de madeira um pouco envelhecidos e que o que nos separava da queda livre era um simples trinquinho, repensei minha experiência. No nosso vagão tinha um pessoal um tanto acima do peso que, para nossa sorte, resolveu ficar sentado no banco do meio e não saracoteou muito pelo caixote. Cada um que chegava perto da janela, o vagão entortava prum lado e eu repetia meu mantra “Se morrer, morro em Viena!”. Depois de sobreviver ao ocorrido, também já tava prontar para andar em qualquer daquelas bugigangas, mas minha companhia me deixou no vácuo. Voltamos para o hotel já por volta das 11h da noite e geral achando que havíamos nos perdido!

Um comentário:

Jú Gata disse...

'Acqua della Fossa' , o perfume...Estou rindo até agora...

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Bem, resolvi postar no blog porque aí lê quem quiser e eu não fico flodando a timeline de ninguém. Desde a catastrófica derrota do Br...