quarta-feira, novembro 03, 2010

28.08.2010 - Diálogos no Escuro


Manhã de sábado, já muito mais fria, e a pergunta na cabeça: “Vamos ou não vamos?” Ok, todo mundo vai. Toca geral se arrumar pra estar lá no Schottentor (antigo portal da cidade) às 10h. O engraçado foi que, conforme íamos andando pelas plataformas do metrô, íamos encontrando o resto do clã. No momento em que chegamos à superfície, quase todo mundo já estava andando junto. O plano: passar umas horas dentro do Dialog im Dunkeln, um centro de experimentos em deficiência visual, onde o visitante irá passar por situaçoes e simulaçoes  que recheiam a vida de quem não pode ver. Numa cidade como Viena que, junto com Vancouver, nada mais é do que a cidade com a melhor qualidade de vida do planeta (repito: DO PLANETA), dá pra fazer essas “graças”. Depois de cuidar muito bem da sua população “normal”, eles ainda têm muitos recursos para investir nas necessidades de quem precisa. Fomos avisados dos mecanismos de segurança: quem sentir tonteira, enjôo ou qualquer outro distúrbio por causa da ausência de luz, avise ao guia IMEDIATAMENTE. Tá pensando que não enxergar é mole? Tá pensando que é só balançar aquela bengalinha?

Antes de entrar na câmara, recebemos uma mini-aula sobre como usar a bengala. A instrutora fala sobre as dimensoes e sobre como você deve “perceber” o raio a sua volta. Deparou com qualquer obstáculo, pare imediatamente. Bengala na mão direita, sempre balançando à sua frente, e mão esquerda para sentir (quando der) as paredes e obstáculos na altura da cabeça. As pessoas são separadas em grupos de seis e o guia controla a formação da fila sempre chamando o nome do primeiro e do último. O primeiro era o Cunhado. O último, o Marido. Eu e Cunhada no meio com mais dois primos. Eu, ferrada duas vezes: cegueira e um guia austríaco com sotaque carregadérrimo! Então, era um tal de “Marido, é você?” “Marido, não sai de trás de mim!” “Marido, o que ele disse mesmo?” “Marido, é direita ou esquerda, caramba?” Todos treinados, enfileirados e com todos e quaisquer objetos que reluzem no escuro fora de circulação, lá fomos nós… direto para a escuridão!

A opção de manter os olhos abertos ou fechados é sua. Você faz o que achar mais er… hummm… “confortável”. Mas estar ali trouxe à tona todo o nosso lado animal. Aí a gente vê como depende dos sentidos e não é à toa que temos cinco. Basta você estar privado de um dos seus sentidos, os outros trabalham feito loucos pra compensar. Estar na escuridão dá calafrios, sudorese, aumenta o batimento cardíaco e dá, sim, um desnorteio por não saber mais o que é lado, em cima ou embaixo… No início era difícil até respirar, depois você vai se “acostumando”. Mas a gente não tava ali só pra ficar sem ver nada. Eles têm esse mundo subterrâneo onde pode-se de tudo, menos usar os olhos. Começamos por um parque. De longe você já escuta a cachoeira e sente o “cheiro” da água. Você tem bancos pra sentar, plantas e flores pra tocar e cheirar, a água pra apreciar… Você escuta os pássaros (Esses são apenas alto-falantes, claro, porque pássaro não canta no escuro, né!), anda pelas pontes (As partes mais difícies são as pontes suspensas, que balançam à beça.), tem comprinha no shopping sentindo muito os produtos e levando ao balcão, tem trânsito na cidade grande (com direito a prestar atencão ao sinal sonoro que vai te dizer se está verde pra você ou não e muita trombada nos carros pra quem não prestou),  tem passeio de barco com ventinho na cara e muito balanço, tem visitação aos mercados de rua numa viagem à Africa, tem bar com barman, nosso ajudante no escuro, que conversou com a gente sobre os anos trabalhados ali (Ele diz que as pessoas sempre perguntam pra ele o que é a escuridão e que ele sempre responde que não tem a menor idéia porque nunca conheceu outro mundo.) e que serviu as bebidas pelas quais pagamos no escuro e, se não fosse por ele, não teríamos a menor idéia de qual moeda ou nota estávamos segurando pra pagar a conta… Uma das primas desistiu depois de uns minutos e foi retirada dali pela saída de emergência. Nosso grupo ficou até o final e já estávamos nos divertindo com as tropeçadas, as bengaladas que levámos uns dos outros, as trombadas nas costas de quem estava na frente… Depois que minha amiga viajou para a Bahia num cruzeiro que ela apelidou carinhosamente de Putanic, eu me sentia quase igual no meio de tantas apalpadas. “Mari, é você?” FOM! “Cunhada, é você aqui na frente?” FOM-FOM Todos acharam melhor manter entre nós o segredo de quem apalpou quem. Que ninguém soubesse os nomes, que nunca mais tocássemos, FOM!, no assunto… pra não ter que conviver com os fantasmas das conseqüências. Tirando a vergonha desse detalhe, digo que foi uma das experiências mais marcantes que já tive na vida. Acho, no ápice do meu “achismo”,  que toda instituição que prega a integração de quem tem necessidades especiais, deveria ter lugares como o Dialog im Dunkeln. Não só pra quem não pode ver, pra quem não pode escutar, falar, andar… (qualquer infinitivo serve), também. Aí, sim, teríamos, além de muita teoria, um pouco de prática que ajudasse a entender e sentir “na pele” aquilo que nem imaginamos por simplesmente podermos fazer de tudo sem questionar nada. Depois do Dialog im Dunkeln, eu gosto ainda mais das formas e das cores!

4 comentários:

Unknown disse...

Nossa, Mari!! Que experiência interessante!! Me lembrei do Instituto Benjamin Constant... Claro que não tive essa experiência, mas tive mais ou menos a idéia de como eles sobrevivem (só na teoria, né!)
Nem preciso dizer que me acabei de rir com o FOM FOM! Passei mal aqui!!

Jú Gata disse...

Pôxa, quem dera que aqui no Brasil tivesse algo assim...Nem rampa nas ruas tem direito...

Mari HIFEN Anna disse...

Pois é. A gente vai aprendendo e esperando a nossa vez... talvez!

Anônimo disse...

Nossa, cara...
Deve ser uma experiência realmente surreal... o.o

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