Bem, resolvi postar no blog
porque aí lê quem quiser e eu não fico flodando a timeline de ninguém.
Desde a catastrófica derrota do
Brasil para a Alemanna, na terça-feira, tenho visto muitos, mas MUITOS, posts
comparando os dois países em vários rankings. Fácil à beça ficar dizendo que
tudo na Alemanha é perfeito, funciona e o Brasil deveria tomar vergonha na cara
e copiar seus bons exemplos. Em muitos aspectos é até verdade. Mas pra você que
nunca viveu na Alemanha, (Turista não conta muito, pois geralmente só vê o lado
“turístico” da coisa.) vai aí uma pergunta: será que VOCÊ estaria preparado pra
viver na Alemanha?
O alemão leva bem a sério a
máxima “Sua liberdade acaba quando a dos outros começa.” Aqui é cheio de regras
e nós, como bons brasileiros, e eu, como boa carioca, às vezes resistimos um
bocado quando nos deparamos com aquilo que não podemos mudar.
Eis a lista a ser pensada:
- A princípio, os alemães são
mais educados do que nós. Cumprimenta-se praticamente todo
mundo: o motorista de ônibus, o vizinho na rua, o vendedor da loja, o
funcionário do mercado... O vendedor da loja geralmente é um expert, atencioso
e não faz cara de bunda quando você não resolve comprar lá. Entende
que a cordialidade de hoje pode fazer um cliente amanhã.
- Na Alemanha, ninguém é
obrigado a votar. Amén!
- As pessoas não se abraçam
muito e quase nunca se beijam. Namorados não se atracam nas ruas.
- Os homens não ficam incomodando
mulher e não viram a cabeça falando baixaria quando passam. Mesmo porque seria
muito fácil dar parte o fulano por assédio.
- As mulheres
usam MUITA maquiagem, mas se vestem mal que só. Os homens são infinitamente
mais charmosos que as mulheres.
- Na hora de
comprar calcinha, esqueçam o meio termo : ou é o fio dental da Paniquete
ou é a ceroula da vó.
- Uma vez aqui, acabaram-se os
seus downloads de músicas, filmes e joguinhos sem pagar. Até o Youtube é
vetado. Não tenho acesso a praticamente NENHUM clip original. A GEMA (Agência
que controla os direitos autorias) veta TUDO. Stream online também é monitorado
e os abusados que insistem (Sim, eles também existem aqui!) e são pegos, vão se
endividar pro resto de suas vidas pagando as multas.
- Se você acha que já está ruim
pra assistir filme legendado aí no Brasil, aqui mesmo é que você não assiste. O
lobby da dublagem é enorme, as pessoas assistem filmes dublados até no DVD. Os making-off de animação são feitos,
pasmem!, com os dubladores, não com os atores originais.
- Engana-se
quem pensa que a juventude alemã lê mais, se informa mais, é mais culta e
visita muitos museus. A juventude aqui não quer saber de nada que não envolva
bebida e cigarro. Muitos museus têm entrada liberada para jovens de até 19
anos. Mesmo assim, você quase não os vê. Lembro de poder bater papos com
meus alunos de 15 anos no Brasil que aqui eu não conseguiria com um jovem de
18.
- A educação na Alemanha, a ÚNICA coisa
pública nesta terra, é altamente elitista. Só chegam às universidade aqueles que,
quando lá na quarta série, são selecionados a dedo pelo professor do primário.
Se ele não achar que você, aos 10 anos, tem perfil pra chegar à vida acadêmica,
baubau. Você até pode tentar contornar certas regras frequentando ginásios
particulares ou, depois de formado em qualquer outra coisa, fazendo dois anos
de adaptação para prestar o famoso Abitur
(Um equivalente do ENEM.). Mas poucos conseguem. Quem não passa é indicado para
as escolas que levam à formação de tecnólogos e técnicos. Uma coisa, porém, é
interessante (E eu acho que deveria ser mais estudada pelo Brasil, por
exemplo.): você não tem que chegar à universidade para “ser alguém na vida”.
Aqui se estuda pelo menos três anos pra se tornar padeiro, açougueiro, operador
de caixa no supermercato... Coisa insana no Brasil, realmente, é achar que todo
mundo tem que ter bacharelado para ganhar a vida.
- Muita gente formada pelas
universidades não consegue emprego. E daí fica vivendo de bolsa... do governo.
- Quem é professor é obrigado a
ter seguro pessoal (Que você mesmo paga.). Sem esse seguro, você não pode ser
empregado.
- Funcionário público não tem
direito de greve. Meu marido, que é professor, não tem permissão para
participar de demonstrações públicas. Qualquer aglomeração de pessoas
em público para protestar qualquer coisa tem que ser comunicada à polícia.
-
O
professor alemão é um dos mais bem pagos do mundo. No entanto, é tão
“despreparado“ e desmotivado quanto. A maioria segue princípios de 40 anos
atrás, mal se recicla, acha que sabe tudo. Têm o péssimo hábito de nunca dar
nota 1 (Nota máxima aqui. As notas vão de 6 a 1.) pros alunos e os tratam como
se nunca pudessem ter o direito de saber tanto quanto ele. “Nota 1 é perfeição,
é pra aquele que sabe tudo. E isso você não pode saber, pois o professor sou
eu.” Lema de muitos...
-
Acabaram os seus pagodes, suas
churrascadas, sua música alta... Aqui não se pode fazer barulho entre
19h e 7h, nem entre 12h e 15h nas áreas residenciais. Domingo não pode nada:
música que dê pro vizinho ouvir, usar cortador de grama, martelar nada no
jardim, trabalhar... Se você insistir, tem sempre um vizinho pra chamar
a polícia e eles chamam mesmo e polícia vem mesmo e você não terá razão alguma.
As pessoas sempre se sentem cheias de razão pra tudo. Alguns são mais flexíveis,
a maioria não. Dou muita sorte pelos meus vizinhos que não implicam com meu
aspirador de pó as 2h da manhã, poìs, por causa do bebê, às vezes é quando
posso limpar a casa.
-
Por falar em limpar a casa, aqui
NINGUÉM (a não ser os ricos de novela) tem empregada. As casas são enormes,
mas cada um limpa a sua. Uma vez ou outra alguém arruma um imigrante
que se presta a fazer uma faxina. Muito raro... e as pessoas te olham torto.
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Alemão vive MUITO de status. O jardim,
o cachorro caro, o carro... Vale sempre mais a pena investir naquilo que o
vizinho vê. Muitas vezes os móveis são de lojas baratas como a IKEA, mas o
carro tem que ser BMW, Audi, Mercedez...
-
Por outro lado, alemão detesta pagar
por serviços. A maioria não paga as taxas extras para entrega e
montagem de móveis, que é cobrada à parte. As pessoas têm o hábito de comprar e
levar os móveis elas mesmas (Já vi um casal tentando enfurnar as partes de um
guarda-roupa num carro Corsa!). Algumas lojas oferecem serviço de
transporte : Você paga uma taxa e dirige um caminhão da loja levando sua
mercadoria e depois devolve o caminhão. Praticamente ninguém paga pra montar ou
instalar nada. Depois é aquela briga na família pra conseguir fazer o que um
profissinal faria em meia hora.
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Você paga imposto por tudo. Até
cachorro.
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Aqui não existe SUS. A rede
médico-hospitalar é privada. Quem não pode arcar com despesas do plano de
saúde, deve procurar um órgão do governo que o financie. Os hospitais são super
equipados, com pessoal geralmente muito atencioso. Mas ninguém sabe pegar uma
veia sem te machucar. E ninguém nem liga se você sair com um hematoma enorme no
braço. Pra eles o normal é assim.
-
Pacientes de plano de saúde às vezes
esperam 5 meses ou mais por uma consulta. Os médicos daqui nunca têm tempo e os
consultórios estão sempre de férias, e alguns vivem lotados. Se você
é paciente particular, ah, aí a coisa já muda. Você conseguirá uma consulta
super rápido e também pedirão tudo quanto é exame: até tomografia por
causa de uma unha quebrada.
-
Acabaram suas comprinhas de shopping
no domingo. No domingo, NADA funciona.
-
Funcionário de repartição pública,
assim como no Brasil, não quer saber de nada e geralmente só trabalha até 12h. A
diferença é que eles, querendo se livrar de você rápido, fazem tudo rápido. Ninguém
quer ver sua cara de novo amanhã.
-
Esqueça fazer suas unhas e depilação
toda semana. Os salões são mais raros e você vai pagar uma nota por algo que
você faria melhor em casa.
- As academias são absurdamente
mais baratas. Mas muitas não permitem que você leve sua própria bebida (Tem que
comprar a deles lá!) e ai de você chegar já com aquele par de tênis que você
pretende usar pra malhar. TEM que trocar o sapato pra não sujar o salão. O que
acho bacana, e devia ser copiado pelos brazucas, é que, depois do treino, nós
mesmos limpamos as máquinas que usamos. Ninguém anda na rua com “roupa de
academia”.
-
A reciclagem funciona bem e
praticamente não existe quem não coopere. Você paga uma taxa anual por cada
lixeira (Orgânico, papel e resto não reciclável.) que tem em casa. Quanto maior
a lixeira, mais cara ela fica. O que faz sentido e eu aprovo. A coleta de lixo
só acontece a cada DUAS semanas, mas você até pode carregar o seu lixo até uma
das oficinas de compostagem e pagar pra despejá-lo lá. A casa fica um caos.
-
Todos aqueles probleminhas “estéticos”
(Tratamento para varizes, ortodontia, clareamento dental...) não são cobertos pelo
plano de saúde. Tudo é pago e é difícil achar um médico que faça, pois, como
eles dizem aqui: “Ah, isso é só estético.”
-
Há uma campanha enorme contra o açúcar.
A escola onde meu marido trabalha, por exemplo, baniu a Coca-Cola das imediações
do prédio. Mas fumar começam praticamente no berço.
-
Os alemâes sâo bem mais magros que os
brasileiros, praticam muito esporte e se exercitam bastante. Aqui gordo paga
mais pelas roupas. Quanto maior o tamanho, mais caro fica. Até faz sentido.
-
Você terá um bom acompanhamento
pré-natal, mas toda ultrassonografia será paga POR FORA do seu plano. Assim
como muitos exames de sangue.
-
Adeus avental no consultório do
ginecologista! Olá ficar lá pra todo mundo ver! E as assistentes não fazem
cerimônia: passeiam pra lá e pra cá, abrindo e fechando porta. Nos
consultórios médicos, os assistentes fazem de tudo: desde atender o telefone
até o seu exame de sangue.
-
Na maioria das lojas o provador é unissex.
Em muitos banheiros femininos, a pessoa limpando é... HOMEM!
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Alemão não gasta dinheiro à toa. Não existe
essa loucura natalina que fazemos. Arregalam os olhos quando digo que tenho
amigos que gastam €4000 só em compras quando viajam. A classe média alemã é
infinitamente menos consumista do que a nossa. Mas viajam MUITO mais!
-
Existem
alguns mendigos na rua sim. Mas não sabemos se são verdadeiros ou a máfia da mendicância, que aqui também
existe. Eles usam cachorro pra pedir esmola. Ninguém vê criança abandonada na rua. Isso merece
destaque.
-
Pra
quem acha que na Alemanha não existe Bolsa-Família (Que gera vagabundos,
lembram?), aqui existem várias medidas governamentais muito parecidas
para conter miséria. O alemão reclama tanto quanto o brasileiro por
estar pagando tanto imposto, mas ainda admite preferir perder esse dinheiro do
que ter um país entregue à miséria e economia informal nas ruas. Conheço um
exemplo de família que recebe auxílio desemprego há anos além de o governo
pagar a casa, telefone, plano de saúde, TV a cabo e creche pras crianças dessa
mãe que não trabalha fora.
- Por causa da baixa natalidade
dos alemães (Dizem que é de 2%) e da vida cada vez mais longa da populacão idosa,
o governo paga um incentivo por cada ciança que você tenha. E porque creches são
caras e a lei declara obrigatória a vaga numa creche para cada ciança, o governo
também paga um adicional para que um dos pais fique em casa com a criança em
vez de ir trabalhar.
- Se eu tivesse um emprego que
me pagasse o que meu marido já recebe, teríamos que pagar praticamente tudo o
que recebi de salário só em impostos. Em quatro semestres dando aula, paguei
mais de imposto do que recebi. Muitos casais que têm filhos decidem:
* quem ganha mais continua
trabalhando
* quem ganha menos fica em casa
com os filhos
Muitos dos que ficam são homens.
- Na Alemanna ainda existe um
bom número de analfabetos. Trabalha-se para que essas pessoas procurem ajuda. Mas
muitos, por vergonha, não aparecem.
-
Na Alemanha se vive com tanto conforto,
segurança e ideia de fututo, que a juventude não se vê animada pra lutar por
nada. A infância é linda, a adolescência uma catástrofe. É como se, em algum
momento, o entusiasmo deles fosse totalmente aniquilado.
-
Esquecam as lindas festas infantis. Não existe
público pra isso. Não existem lojas de decoração pra festas. Não existem lojas
de material descartável (Que condiz com a política de desperdício e
reciclagem.). Faz você sentir saudades daquela zona que é o Mercadão de
Madureira.
-
As festas de casamento que vi parecem
casamento de Festa Junina... ou Halloween.
Eu poderia passar dias falando
sobre tantas diferenças. Muitas delas nem são importantes. Resta saber se
muitos brasileiros que adoram elogiar o que o outro tem, conseguiriam abrir mão
de tanto jeitinho, de tanta informalidade, de tanta festa, de tanto desperdício... pra viver onde
tudo é controlado, pago e multado. Eu abri. Viver aqui é muito bom, mas não é
pra todo mundo.
Schöne Grüße!